Existem peças teatrais que apenas narram uma história, enquanto outras levam o público a refletir sobre suas próprias experiências. “Fafá de Belém, O Musical” se enquadra na segunda opção. Com quase três horas de duração, essa produção vai além de retratar a carreira de uma das vozes mais icônicas da música brasileira; ela transforma a trajetória de Fafá em um símbolo representativo de muitos brasileiros que deixaram sua terra natal em busca de novos horizontes, levando consigo as memórias, tradições e identidade que herdaram.

Durante a apresentação, é impossível não recordar os versos de Dona Ivone Lara em “Alguém Me Avisou”: “Eu vim de lá, eu vim de lá, pequenininho”. Essa frase parece reverberar em cada cena da jovem paraense que deixa Belém para enfrentar um Sudeste pouco familiarizado com a cultura do Norte do Brasil. A peça provoca uma reflexão profunda sobre a vida do espectador, especialmente para aqueles que também vieram de outras regiões.

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"Fafá de Belém, o Musical" conta com Lucinha Lins, Helga Nemeczyk e a neta da cantora, Laura SaabCrédito: Nil Caniné – Divulgação
"Fafá de Belém, o Musical" conta com Lucinha Lins, Helga Nemeczyk e a neta da cantora, Laura SaabCrédito: Nil Caniné – Divulgação
"Fafá de Belém, o Musical" conta com Lucinha Lins, Helga Nemeczyk e a neta da cantora, Laura SaabCrédito: Nil Caniné – Divulgação
"Fafá de Belém, o Musical" conta com Lucinha Lins, Helga Nemeczyk e a neta da cantora, Laura SaabCrédito: Nil Caniné – Divulgação
"Fafá de Belém, o Musical" conta com Lucinha Lins, Helga Nemeczyk e a neta da cantora, Laura SaabCrédito: Nil Caniné – Divulgação

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O espetáculo vai além da simples biografia e se configura como uma declaração carinhosa à Amazônia. As belezas naturais da floresta e dos rios, assim como o estilo de vida amazônico e a cultura paraense permeiam toda a narrativa. A sensação é que Fafá nunca abandonou sua terra natal. Pelo contrário, ela sempre carregou sua essência consigo ao longo da vida. Além disso, mantém viva sua ligação com as raízes portuguesas.

Nascida em Belém e filha de imigrantes portugueses, Fafá possui dupla cidadania desde 2011 e transita entre os dois continentes. Sua conexão com Portugal é tão intensa que frequentemente é apresentada pela mídia portuguesa como uma artista estrangeira autorizada a interpretar fados.

Em um cenário onde muitas trajetórias artísticas parecem ser moldadas por padrões globais rígidos, este musical escrito por Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche — sob idealização e produção artística por Jô Santana — ilustra uma mulher que construiu sua carreira permanecendo fiel à sua identidade.

Essa mensagem potente se destaca em uma das cenas mais impactantes da obra quando representantes da indústria musical tentam impor padrões estéticos à artista. A resposta firme dela demonstra resistência às pressões externas e reafirma sua identidade artística. Esta passagem ressoa fortemente com discussões contemporâneas sobre pressão estética enfrentadas principalmente por mulheres no setor do entretenimento.

A interpretação dessa fase da vida da artista fica sob responsabilidade da atriz Helga Nemeczyk, que retrata Fafá desde sua juventude até os seus cinquenta anos. “Interpreto a Fafá dos 17 aos quase 50! É um grande desafio abordar esse período repleto tanto das conquistas quanto das dificuldades que ela enfrentou”, comentou a atriz antes do início do espetáculo.

Para dar vida à personagem, Helga se dedicou intensamente à pesquisa sobre Fafá e à cultura amazônica. “Sinto-me privilegiada por participar deste musical brasileiro que traz tantas histórias emocionantes. Após os ensaios com Fafá tirei algumas dúvidas valiosas. Antes disso, dediquei tempo para estudar suas obras através dos álbuns musicais e entrevistas”, revelou.

Lucinha Lins também destacou essa brasilidade presente na montagem ao interpretar Fafá na atualidade. Ela guia o enredo revisitando suas memórias pessoais. “Achei engraçado porque sou loira com olhos azuis! E ela representa uma beleza indígena única do Brasil. No entanto, no teatro conseguimos transcender isso — há momentos em que me sinto como Fafá”, comentou Lucinha.

Para ela, o valor do musical vai além da homenagem à artista. “É um espetáculo brasileiro que apresenta uma brasilidade inigualável. Traz aspectos culturais do Norte para que todos possam conhecê-los”, afirmou.

Além disso, o espetáculo aborda eventos significativos na história recente do Brasil. A participação ativa da artista no movimento “Diretas Já” é um dos trechos mais emocionantes da narrativa onde sua voz se torna um poderoso instrumento político durante as mobilizações populares pela redemocratização.

Outra temática explorada é sua fé religiosa; o Círio de Nazaré é uma das maiores manifestações religiosas do mundo e representa um aspecto importante da identidade paraense na peça. O espetáculo também menciona eventos significativos como a Festa da Chiquita — reconhecida como símbolo cultural LGBTQIA+ durante o Círio.

Musicalmente falando, a narrativa reflete as várias fases da carreira da artista — desde seu sucesso inicial até suas reinvenções artísticas mais recentes através parcerias icônicas como com Chitãozinho & Xororó na canção “Disfarce” até ser redescoberta por novas gerações através do remix “Emoriô”. A peça evidencia como Fafá conseguiu atravessar diferentes épocas mantendo-se autêntica.

No clímax do espetáculo ocorre um momento sublime quando “Vermelho” invade o palco transformando completamente a proposta inicial em uma verdadeira celebração à Amazônia. A presença do Boi Garantido remete diretamente ao Festival de Parintins criando um impacto visual impressionante que sintetiza toda a experiência vivida até aquele ponto.

A história contada não é apenas sobre Fafá; trata-se também sobre aqueles que partiram em busca do novo ouvidos críticos à necessidade constante dessas mudanças para serem aceitos em ambientes desconhecidos — mas acima disso são histórias sobre resistência. Ao final do espetáculo fica claro que ele ressalta menos sobre fama ou celebridade e mais sobre pertencimento.

Nota: 10/10