O percurso de afirmação de gênero não é padronizado e pode variar amplamente. Para aqueles que buscam serviços de saúde no Brasil, o tempo necessário para a realização de intervenções hormonais ou cirúrgicas depende das necessidades específicas de cada indivíduo, do tipo de tratamento desejado, das condições clínicas e da infraestrutura disponível na rede de saúde.
No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), a assistência é organizada através do Processo Transexualizador, que foi estabelecido em 2008 e revisto em 2013. Este programa oferece um atendimento abrangente, englobando não apenas cirurgias, mas também acolhimento, acompanhamento profissional multidisciplinar, hormonização, avaliações médicas e cuidados tanto pré quanto pós-operatórios.
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O acesso à rede pública inicia-se pela Atenção Primária à Saúde. Assim, o indivíduo pode se dirigir a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para receber o primeiro atendimento. Dependendo da situação apresentada, poderá ser encaminhado para um serviço especializado. As secretarias municipais e estaduais são responsáveis pela regulação desse acesso.
Conforme explica o urologista Dr. Caique Fernandes, especialista em Cirurgias de Afirmação de Gênero e atuante na pesquisa acadêmica da área, é essencial reconhecer que cada paciente possui sua própria trajetória. Essa compreensão ajuda a evitar expectativas erradas sobre os prazos envolvidos.
“Cada processo é único. Os pacientes têm histórias distintas, metas variadas e necessidades particulares. A cirurgia pode ser parte dessa jornada, mas não deve ser vista como um ato isolado. Existe todo um planejamento necessário para garantir que cada fase ocorra com segurança e conforme as exigências daquele paciente”, ressalta Dr. Caique.
Nem todas as pessoas trans optam por cirurgia
É importante destacar que a afirmação de gênero não está necessariamente atrelada à realização de cirurgias. As demandas e objetivos diferem entre indivíduos, e o suporte pode abranger diversas formas de cuidado.
“O tratamento não é definido por uma única fase. Algumas pessoas buscam apenas acompanhamento hormonal, enquanto outras desejam realizar procedimentos cirúrgicos específicos ou até mesmo optam por não fazer cirurgia alguma. O crucial é que todas as decisões sejam tomadas com informação e autonomia adequadas”, enfatiza o médico.
Por essa razão, não existe um prazo fixo para “finalizar” o processo. Muitas vezes, a afirmação de gênero acontece por meio de várias etapas que podem ocorrer em momentos diferentes e conforme as escolhas individuais.
Por que a espera no SUS pode ser longa?
Na rede pública, o tempo necessário para os procedimentos é afetado por diversos fatores. Além da demanda existente e da quantidade disponível de vagas, influenciam também a presença de equipes especializadas, exames necessários, avaliações clínicas e multiprofissionais, preparação para intervenções e a capacidade dos serviços em atender esses pacientes.
Dessa forma, duas pessoas que iniciam o acompanhamento simultaneamente podem vivenciar etapas diferentes e alcançar determinados procedimentos em períodos completamente distintos.
Em alguns casos, a espera por cirurgias pode se estender por muitos anos. Há relatos em serviços públicos onde as filas para certos procedimentos superam uma década, evidenciando a disparidade entre os tempos projetados para acompanhamento e a real espera por uma cirurgia.
Para Dr. Caique, compreender essa dinâmica é crucial para ajustar as expectativas dos pacientes em relação ao tratamento.
E quanto à rede privada?
No setor privado, o processo tende a ser mais ágil. Os pacientes têm a liberdade de buscar diretamente um especialista para consultas e exames sem tanta demora, permitindo uma organização mais rápida das fases do tratamento.
Entretanto, isso não implica que na rede privada não haja necessidade de avaliação médica ou que as cirurgias possam ser realizadas imediatamente. O planejamento continua sendo essencial para avaliar as condições clínicas individuais e os riscos associados aos procedimentos.
“O tempo não deve ser avaliado apenas pela data da cirurgia programada. Nosso foco é assegurar que o paciente esteja preparado tanto física quanto emocionalmente para cada etapa. A segurança deve sempre prevalecer sobre a urgência”, enfatiza Dr. Caique.
Apesar das diferenças nos tempos e acessos entre os dois modelos assistenciais, o acompanhamento multidisciplinar continua sendo fundamental em ambos os casos visando garantir uma assistência adequada antes, durante e após qualquer procedimento realizado.
Quais são os procedimentos disponíveis na afirmação de gênero?
O Processo Transexualizador abrange várias opções terapêuticas que podem ser recomendadas com base nas características específicas e nas necessidades clínicas dos pacientes.
Entre os procedimentos disponíveis estão hormonização além das cirurgias como mastectomia, histerectomia, vaginoplastia, vulvoplastia e metoidioplastia até intervenções relacionadas à colocação de próteses testiculares entre outros serviços previstos na assistência especializada.
A neofaloplastia — um procedimento voltado à construção do pênis — tem sido realizada experimentalmente no SUS conforme regulamentação específica. Em 2024 foi adicionada à Tabela de Procedimentos do SUS para homens trans pelo Ministério da Saúde atendendo a uma decisão judicial recente.
A desinformação ainda representa um desafio
Além dos problemas relacionados ao acesso aos serviços especializados, outro desafio destacado pelo especialista é a abundância de informações incorretas sobre afirmação de gênero disponíveis online.
“É comum atender pacientes inseguros devido ao contato com informações incompletas ou errôneas na internet. Embora ela facilite o acesso ao conhecimento necessário também propaga muitos mitos. Por isso é imprescindível procurar orientação médica para entender as possibilidades reais assim como os limites e cuidados envolvidos”, observa Dr. Caique.
Dr. Caique possui formação sólida na área da urologia focada na saúde sexual além das cirurgias relacionadas à afirmação de gênero incluindo residência em Cirurgia Geral e Urologia mestrado doutorado em andamento bem como experiência internacional adquirida em centros reconhecidos nos Estados Unidos e Alemanha.
Segundo ele sua formação acadêmica aliada à prática contribui significativamente para oferecer um atendimento pautado em evidências científicas adaptadas às particularidades dos pacientes tratados.
“Quando conduzimos esse processo com responsabilidade respeitando tempo individualidades conseguimos proporcionar tratamentos mais seguros com resultados significativos para cada pessoa envolvida. Não existe uma fórmula única para transição pois essa personalização faz parte integral do cuidado oferecido”, conclui Dr.Caique.
Embora o Processo Transexualizador esteja vigente no SUS há quase duas décadas ainda existem desafios no acesso à informação bem como aos serviços especializados necessários. Conhecer as opções disponíveis no sistema público bem como as distinções entre os atendimentos público e privado são fundamentais para auxiliar pacientes nas decisões relacionadas ao seu cuidado pessoal.
O processo exige mais do que estabelecer prazos requerendo acompanhamento individualizado planejamento criterioso avaliação cuidadosa das etapas envolvidas seja no SUS ou na rede privada visando sempre decisões informadas seguras respeitando as necessidades únicas dos indivíduos atendidos..
