Recentemente, o Conselho Federal de Medicina (CFM) decidiu proibir a utilização do polimetilmetacrilato (PMMA) por médicos em procedimentos estéticos e reparadores em todo o Brasil. No entanto, essa decisão inclui uma exceção que gerou controvérsias: a substância continuará a ser utilizada no tratamento da lipodistrofia em pacientes com HIV/aids, desde que os procedimentos sejam realizados em unidades de alta complexidade autorizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Para entender melhor essa exceção e suas implicações, o portal LeoDias conversou com o cirurgião plástico Dr. Gustavo Merheb, que explicou como a lipodistrofia relacionada ao HIV se conecta ao uso do PMMA.
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O que é a lipodistrofia associada ao HIV?
Conforme esclarecido pelo especialista, essa condição envolve mudanças na distribuição da gordura corporal observadas em indivíduos vivendo com o vírus, especialmente aqueles que foram submetidos a tratamentos mais antigos.
“A lipodistrofia associada ao HIV é uma síndrome caracterizada por alterações na distribuição da gordura corporal, tanto devido à infecção quanto ao tratamento com terapia antirretroviral, frequentemente relacionado a coquetéis antirretrovirais mais antigos. Esses tratamentos resultam em pacientes estigmatizados por doenças crônicas. Contudo, isso não é tão comum atualmente”, comentou o especialista.
Essas mudanças físicas podem ter um impacto significativo na qualidade de vida dos afetados.
“As alterações mais frequentes incluem perda de gordura facial; diminuição da gordura nos membros e glúteos; acúmulo de gordura abdominal; e o surgimento da giba. Essa perda significativa de gordura facial causava um estigma nos pacientes, impossibilitando que mantivessem privacidade sobre seu diagnóstico”, acrescentou.
Por que o CFM manteve uma exceção para pacientes com HIV?
O cirurgião plástico explicou que a manutenção da autorização se deve ao fato de muitos pacientes afetados pela lipodistrofia apresentarem marcas permanentes da condição, justificando assim um tratamento reparador.
“Os pacientes HIV positivos sob terapia antirretroviral muitas vezes exibem estigmas indeléveis da doença, o que permite a continuidade do uso do PMMA para esse propósito, desde que realizado em ambiente hospitalar por médicos qualificados. É essencial ressaltar que a autorização anterior para o uso do PMMA sempre foi voltada para finalidades reparadoras e nunca estéticas. O uso geral e irrestrito para fins cosméticos nunca foi permitido neste país”, destacou.
Entretanto, ele observa que os avanços nas terapias têm reduzido substancialmente os casos mais severos de lipodistrofia vistos nas décadas passadas.
“Na minha visão, pacientes HIV positivos sob tratamento antirretroviral frequentemente não possuem gordura suficiente para colheita e aplicação em volumes adequados no rosto. Pessoalmente, sou contra essa liberação atual pois o grande aumento no uso do PMMA reparador entre esses pacientes ocorreu entre os anos 90 e 2000. Atualmente, as terapias vigentes não geram mais essas faces estigmatizadas! É importante notar também que o uso inadequado do PMMA para fins cosméticos sempre se baseou nessa permissão para usos reparadores relacionados ao HIV. Uma fiscalização efetiva nunca foi realizada! Assim, sob a justificativa de um uso reparador, o PMMA foi amplamente adotado para fins estéticos”, explicou.
Benefícios para os pacientes
O principal objetivo desse tratamento é restaurar características faciais perdidas devido à doença ou aos tratamentos anteriores.
“A meta é recuperar um volume facial adequado e ajudar na autoestima dos pacientes além de proporcionar privacidade quanto ao diagnóstico”, elucidou.
Quando questionado sobre as evidências e os benefícios do produto nesses casos específicos, ele enfatizou que não existe uma solução perfeita para esse tipo de reconstrução.
“De acordo com minha perspectiva, não há preenchedor ideal. O ácido hialurônico é um preenchedor excelente mas caro e não foi desenvolvido para ser utilizado subcutaneamente ou intramuscularmente em grandes volumes; ele é absorvível e requer retoques quase anuais. O PMMA se apresenta como uma alternativa mais acessível podendo ser aplicado em camadas mais profundas sem ser absorvido pelo organismo, assegurando resultados duradouros. No entanto, suas complicações sérias podem surgir a qualquer momento na vida dos pacientes. Em algum ponto, a Anvisa determinou que os riscos associados à sua aplicação seriam compensáveis pelos resultados obtidos. Vale ressaltar também que a quantidade aplicada no rosto é consideravelmente menor comparada à utilizada nos glúteos por exemplo, reduzindo assim as chances de complicações”, finalizou.
Por que o tratamento deve ser feito em hospitais credenciados pelo SUS?
A nova diretriz estabelece que os procedimentos devem ocorrer exclusivamente em unidades hospitalares credenciadas pelo SUS devido à complexidade envolvida nos casos tratados.
“Isso se deve ao fato de tratar-se de um procedimento realizado em pacientes imunocomprometidos. Esse nível adequado de cuidado é fundamental dentro das políticas públicas voltadas à saúde”, afirmou ele.
Merheb também ressaltou quais práticas devem ser implementadas para garantir maior segurança durante esses procedimentos.
“Não difere muito das precauções necessárias para qualquer tipo de tratamento invasivo realizado por motivos estéticos ou reparadores! Deve haver seleção criteriosa dos pacientes; avaliação clínica e infectológica prévia; emprego de microcânulas e técnicas menos traumáticas; aplicação nos planos anatômicos corretos; utilização moderada por sessão; sessões seriadas e progressivas; rastreabilidade dos produtos utilizados; monitoramento prolongado; além da realização dos procedimentos apenas por profissionais experientes. Em última análise, boas práticas médicas deveriam ser universais”, concluiu.
Riscos menores e benefícios clínicos
O cirurgião plástico reafirmou que tanto os benefícios clínicos quanto a menor quantidade utilizada justificam a continuidade da autorização nesses casos específicos.
“Ambos os fatores são relevantes. Conforme indicado pela Anvisa, o benefício clínico justifica o tratamento e quanto menor for o volume aplicado menor será a probabilidade de complicações! Estamos falando aqui sobre mililitros aplicados no rosto versus quantidades muito maiores nas nádegas!”
Existem alternativas ao PMMA?
Embora haja outros métodos disponíveis para tratar a lipodistrofia, o especialista observa que eles geralmente apresentam limitações significativas.
“Estimulantes de colágeno como ácido poliláctico (Sculptra), hidroxiapatita de cálcio (Radiesse), ácido hialurônico ou enxerto autólogo têm custos elevados e resultados incertos necessitando aplicações anuais. As expectativas podem ser frustrantes”, alertou ele.
Por fim, Merheb comenta que os pacientes adequados às indicações estipuladas pela resolução estão se tornando cada vez mais raros.
“Os indivíduos elegíveis segundo as diretrizes atuais são aqueles marcados pelo estigma relacionado à doença e seus tratamentos! Como mencionei anteriormente isso está se tornando cada vez menos comum fazendo-nos refletir sobre a real necessidade desse produto problemático cujos aspectos relativos à qualidade e integração biológica ainda deixam muito a desejar”, concluiu.
