Enfrentar a própria solidão é um desafio complexo e muitas vezes perigoso, que poucos se atrevem a encarar repetidamente. Essa jornada pode ser interpretada de maneiras diversas, seja simbolicamente, ao se sentir isolado em meio a tempestades ou dias ensolarados com pessoas ao redor, ou literalmente, ao navegar sozinho no Oceano Atlântico em uma canoa. Trata-se de uma expedição sem volta, mesmo que os locais visitados se repitam. Amyr Klink, com sua habilidade ímpar, compartilha muito mais sobre o significado de viver, a solidão e a “solitude” do que apenas suas aventuras no mar. Em entrevista com esta repórter, Daniella Magalhães, ele falou sobre o filme que retrata sua jornada de 100 dias entre Lüderitz, na Namíbia, e o Brasil.
Amyr me recebeu com bom humor em um hotel luxuoso em Copacabana, convidado pela Disney. O dia quente começou com nuvens cobrindo a vista do Pão de Açúcar. Ele revelou ter acordado às 5h da manhã e ficou impressionado ao ver tantas pessoas na praia aguardando o nascer do sol, sentindo vontade de entrar na água com elas. Para o navegador, o mar é como sua segunda casa; foi dentro dela que surgiu a ideia para o longa-metragem. Sua esposa, Marina Bandeira Klink, já havia pensado em adaptar seu livro “Cem Dias Entre Céu E Mar” para o cinema antes mesmo do casamento. No entanto, a produção levou alguns anos para se concretizar, como explicou Amyr:
“Marina negociou os direitos [do filme], e o diretor era Breno Silveira, um grande nome na direção. Infelizmente não funcionou com a primeira roteirista e nem com as duas seguintes; um deles era bastante temperamental e houve brigas. Depois entrou outra roteirista e então Breno perdeu sua esposa. Quando ele arrumou uma nova namorada, disse que ela seria a próxima roteirista. Eu avisei: ‘Breno, eu gosto de você, mas isso não vai dar certo’. E ele acabou falecendo também. A produtora Bossa Nova apareceu e tudo parecia perfeito até que eles fecharam as portas. A Paula Cosenza (produtora) já conhecia o projeto há anos e conseguiu juntar todas as peças, contatou Carlos Saldanha (diretor) e assim a produção finalmente avançou.”
<p Durante nossa conversa na semana do Festival do Rio, Amyr ainda não havia conseguido ver o filme completo por estar sempre sendo interrompido para dar opiniões sobre cenas específicas. Entretanto, ele afirmou sem hesitar que a adaptação foi fiel ao livro original e até superou suas expectativas: “Detesto aqueles autores que reclamam porque algo não está exatamente como em seu livro; eu fiquei surpreso com o rigor dos detalhes que a equipe de produção levantou”.
Klink recordou com carinho seu encontro com os exploradores noruegueses Thor Heyerdahl, Bengt Danielsson e Knut Haugland da expedição Kon-Tiki. Eles atravessaram o Oceano Pacífico em 101 dias em uma jangada feita de troncos de balsa e cordas de cânhamo; suas histórias também foram transformadas em livro e filme – este último considerado por Klink superior à obra original.
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Amyr acredita que todas as grandes expedições deixam marcas profundas, mas ele não pretende repetir suas experiências passadas para criar novas memórias. Com um sorriso ele afirmou: “Não faria nenhuma delas novamente”. Sua primeira viagem realmente arriscada foi a circum-navegação da Antártica (1998), uma jornada sem precedentes que muitos tentaram seguir depois dele sem sucesso. “Recentemente ouvi falar de um russo tentando realizar essa travessia atualmente; é uma aventura séria”, comentou Klink.
Sendo proprietário de marinas, embora tente ser modesto acerca de seus conhecimentos náuticos, isso não dura muito tempo. O escritor valoriza mais a cultura brasileira de exploração marítima utilizando recursos locais do que seus próprios feitos pessoais: “Construir nossos próprios barcos promove uma conexão emocional; você compreende cada detalhe técnico da embarcação e isso reduz erros”, explicou.
Klink também reconhece que seu estilo de trabalho é visto como “polêmico” por especialistas internacionais por aliar tecnologia avançada às soluções criativas brasileiras. Nesta parte da conversa se transformou numa verdadeira aula sobre navegação:
“Por exemplo, observei as jangadas do Ceará; delas copiei soluções aerodinâmicas ao invés das hidrodinâmicas tradicionais. A jangada feita de tábuas no Ceará tem características únicas para encalhar na praia; além disso, há a jangada Pitimbu na Paraíba – única no mundo – com dois mastros utilizados para aumentar pressão na proa ou popa. Eu apliquei essa ideia em um barco de 140 toneladas apesar das críticas americanas dizendo que misturava soluções ‘ignorantes’. Ignorante? São gênios! Os barcos feitos na Bahia ou os da Amazônia têm qualidades incríveis que muitos engenheiros navais dos EUA poderiam aprender.”
Amyr Klink é considerado tanto “louco” quanto gênio por muitos; sua trajetória inspira diversas pessoas – seja aquelas dispostas a enfrentar desafios semelhantes aos seus ou aquelas apenas buscando metaforicamente desbravar os mares da vida. Ele brinca sobre seu receio: “Fico preocupado se as pessoas assistirem ao filme e decidirem navegar por conta própria!”
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No mesmo ano em questão (2026), Raphael Garcia fez uma travessia memorável seguindo os passos do seu ídolo em 136 dias também remando até Salvador onde teve um emocionante encontro com Amyr. Posteriormente se juntaram ao cantor Almir Sater para um almoço especial.
Amyr acredita que o tempo prolongado da travessia de Raphael pode ter relação com mudanças climáticas recentes: “A formação intensa de cracas nos barcos hoje é bem maior do que há quatro décadas”, ressaltou ele enquanto comentava sobre suas próprias experiências como proprietário de marina.
Sua análise sobre tubarões também intrigou esta repórter – enquanto Raphael teve encontros diários durante sua viagem! Ao comentar sobre isso Klink foi reconfortante: “Eles são curiosos; esfregam-se nos barcos procurando comida.” Não consegui evitar mencionar meu próprio medo diante dessa situação.
Diante das suas amplas experiências – tanto solo quanto acompanhadas – Klink alterou sua visão sobre solidão agora cercado pela família composta pela esposa Marina e filhas Laura, Maria Helena e Tamara: “Às vezes é um alívio estar sozinho entre tanta agitação!” riu ele.
A herança deixada por Amyr extrapola seus livros e filmes – onde faz breves aparições – incluindo aspectos biológicos através da filha Tamara que segue seus passos desbravadores criando novas preocupações durante suas expedições. Orgulhoso pelas conquistas dela disse: “Ela entendeu bem que heranças são diferentes do patrimônio material.” Em tom reflexivo concluiu: “Todos têm suas próprias histórias”.
Informações
A estreia do filme “100 Dias” está marcada para quinta-feira (29/10) nos cinemas brasileiros. Dirigido pelo renomado Carlos Saldanha, traz à tona a desafiadora travessia remo entre Namíbia e Brasil protagonizada por Amyr Klynk vivido por Filipe Bragança. A obra ainda conta com participação especial da atriz Philippine Leroy-Beaulieu como Asa Frieberg Klink (mãe). Fique atento à próxima semana onde traremos mais entrevistas aqui no portal LeoDias! Agradecimentos à Buena Vista International (The Walt Disney Company).
